à voz do morro

Wednesday, May 24, 2006

O brasil perde mais um mestre



Eu como a maioria das pessoas, que nunca tiveram o privilegio de freqüentar a quadra da Portela, nem pertenceram às gerações que assistiram aos grupos Rosas de Ouro, Cinco Crioulos, A Voz do Morro e os lendários shows no Zicartola, conheci o Seu Jair do Cavaquinho, com seu disco solo. Muito tarde...
Sou obrigado a confessar que a primeira vez que escutei seu disco, fiquei chocado, era pra mim uma nova e maravilhosa forma de se compor e tocar o samba. Seu Jair com seu estilo único, de extrema sofisticação estilística, mas sempre de uma maravilhosa singeleza estética, foi para mim a mais evolucionaria descoberta, desde que fui apresentado aos sambas de Cartola. Esse homem tinha o lirismo dos grandes poetas eruditos e a humildade e simplicidade dos mais brilhantes trovadores populares. Era a melhor palhetada de Samba, segundo o grande mestre Jacob do Bandolim, e o ultimo grande representante do desconcertante miudinho portelense.
Epítome do samba, Seu Jair era antes de tudo, Jahyr de Araújo Costa, um cidadão Brasileiro, que como a maioria, trabalhou incansavelmente para levar uma vida digna. Gênio popular, que transformou em bordaduras, imagens da vida, como o amor no Carnaval e na Feira, a Lida no Campo, a Separação e a Velhice. Nunca teve, por parte da sociedade brasileira, nem durante sua vida e nem agora na sua morte, o reconhecimento que merecia. Apesar disso, no ambiente oficialmente negligenciado do samba, encontrou Seu Jair um outro lado do Brasil, onde ainda imperava uma solidariedade sincera, de pessoas que viviam, como ele, em dificuldades extremas, mas que mesmo assim não desistiam de comemorar a beleza de viver, de amar e de sofrer. Essas pessoas simples, que teriam, em vista das aflições que passam, tudo para desistir da felicidade, se mostram na verdade, seus maiores ativistas. A Portela, a Mangueira e as outras Escolas de Fundamento, são baluartes dessa luta pela dignidade, pela igualdade e por Justiça. A escravidão acabou, mas os seus resultados ainda nos assombram, como nos lembrou Seu Jair em “Acorda, Negro Velho”. É na escola de samba que artistas como Seu Jair encontraram respaldo para a sua produção artística, pois, nesse espaço comunitário, de amizade e solidariedade, os bambas conseguiam unir-se para produzir uma defesa eficaz de seu estilo de vida, o Samba.
O que seria da Portela sem Seu Jair e de Seu Jair sem a Portela, o Samba se mostra assim, ao mesmo tempo arte individual e coletiva, fruto de uma perfeita harmonização entre o individual e o comunitário, o individuo pratica o bem comunitário, porque entende que o bem de todos, é o bem dele próprio também. Isso se faz presente na arte e em todos os outros aspectos da vida dos Brasileiros mais simples. Essas pessoas nos mostram o que realmente é Cidadania, e ainda que podemos e devemos, aqui no Brasil, desenvolver uma nova sociedade, baseada na solidariedade, na simplicidade, no beneficio de todos. Sem que para isso precisemos perder a ternura, o lirismo e o mistério da vida. Se o nosso estado e nossa sociedade são omissos, nosso povo se mostra cada vez mais solidário, com a simplicidade, de quem quer viver bem e feliz, sem que para isso precise progredir às custas do sofrimento alheio.
Seu Jair cresceu na Portela, e participou das grandes conquistas desse monumento da cultura brasileira. Lá onde os humildes se fazem nobres, Seu Jair se sagrou rei, e erigiu junto com os outros grandes reis como Paulo da Portela, Natal, Marçal, Candeia, Paulinho da Viola, Monarco e vários outros, a Portela como um dos palácios do Samba. Seu Jair vai embora, mas nos deixa um grande legado e uma grande oportunidade, de uma vez por todas pararmos de olhar só para as culturas estrangeiras, e finalmente valorizarmos o nosso, a beleza de nosso povo e de nossa cultura. Definitivamente Seu Jair é mais um mestre que vai fazer muita falta, mas outros grandes mestres como ele, ainda estão aí, pedindo, às vezes até suplicando, para serem ouvidos. Eles têm muito a nos contar e enriquecer, seja no Samba do rio, no da Bahia, no Congo, no Coco, na viola Caipira e em todas as demais manifestações populares do Brasil. Muita gente boa ainda está dando prosseguimento ao samba, as Velhas Guardas da Portela, da Mangueira, do Império, do Salgueiro e tantas outras vão encaminhando essa grande luta cultural pela preservação de nossas raízes e de nosso jeito tradicional de viver e de ver a vida. Além disso, a esperança se faz, porque nomes como o de Marisa Monte e Pedro Amorim, que conseguiram a tempo registrar o patrimônio cultural de Seu Argemiro Patrocínio e Seu Jair do Cavaquinho em cd, além de Teresa Cristina, Zeca Pagodinho, Luiz Carlos da Vila, Dudu Nobre, Arlindo Cruz, Seu Jorge e outros estão aí, dando continuidade e reinterpretação à arte do Samba.
Seu Jair vai deixando uma legião de fãs, que sempre conviveram com ele e muitos outros, como eu, que recém o tinham descoberto. Vai, deixando um exemplo e um caminho aberto, cabe a nós segui-lo, garantindo a permanência de sua obra e a continuidade de seu movimento. Nós, órfãos brasileiros, lhe dizemos muito obrigado. Eu, com muitas saudades no coração, lhe digo:
- Vá com deus meu mestre!



Texto de Rafael Galante

Livros que indico!

a bigrafia do mestre Pixinguinha
CABRAL, Sérgio. Pixinguinha, vida e obra. Rio de Janeiro, Lumiar, 1998.

excelente almanaque! dá uma boa idéia geral, sem, no entanto, ser raso.
DINIZ, André. Almanaque do choro. A história do chorinho, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.

Sem comentários, simplesmente maravilhoso!
CAZES, Henrique. Choro - Do quintal ao Municipal. Rio de Janeiro, Editora 34, 1999.

Talvez por estudar bandolim seja suspeito, mas aprendi muito com este. Emocionante!
PAZ, Ermelinda Azevedo. Jacob do Bandolim. Rio de Janeiro: Editora da FUNARTE, 1997.

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Tuesday, May 23, 2006

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